A História
Houve um tempo em que uma orda de seres malignos se organizou para criar uma arma de destruição em massa. Mas não era qualquer arma, ela deveria ser inserida na sociedade de forma sutil, sem despertar a menor fagulha de desconfiança naqueles seres predestinados a sofrer pela eternidade.
Dentre as terríveis especificações do objeto demoníaco, constava a necessidade deste em se passar por um dispositivo de libertação. Dessa forma, aqueles fadados ao tormento supremo veriam no objeto uma necessidade vital.
Mas o projeto ia além do nefasto. Seu potencial caótico foi geniosamente escondido sob uma manta ambientalista. Além de liberdade, o objeto das trevas seria associado à preservação ambiental. Os pobres pandas estariam salvos, e a Greta finalmente pararia de encher o saco.
A lista de especificações encerra-se com um detalhe diabólico: um tridente. Sem a referência ao ícone tríplice do inferno, a criação não poderia atingir seu ápice destrutivo.
Ao seguir-se à risca toda a extensa linha de montagem, tem-se o resultado impressionantemente demoníaco: a famigerada bicicleta de carga com três rodas, ou O Pégasus do Apocalipse, para os sobreviventes mais íntimos.
As fábricas das trevas se instalaram pela Terra, contando com o apoio dos humanos, que não faziam a menor ideia do poder maléfico do artefato que lhes fora incubido de forjar.
A Família Addams foi procurada para liderar a empreitada, mas ficaram horrorizados após os testes preliminares com o protótipo. Rejeitaram a proposta e resolveram, então, investir em algo bem menos dolorido: bungee jump amarrado pelas bolas.
Sauron foi o único que aceitou de prontidão a proposta, submetendo a Terra Média a uma era de tanto sofrimento que levou os Elfos a deixarem-na em busca de locais mais seguros para viverem. A grande maioria encontrou sua paz no Rio de Janeiro, bem longe daquela besta instável e de Sauron. Também adoraram a ideia de finalmente terem uma boa justificativa para não usarem anel algum.
Leonardo da Vinci teve contato com o Pégasus logo quando criança, e tentou incansavelmente projetar um concorrente bélico à altura. Falhou miseravalmente, mas pelo menos faturou uns trocados vendendo suas criações para Mortícia Addams, que procurava brinquedos seguros para Vandinha enquanto aguardava a alta de Gomez da UTI do hospital psiquiátrico.
Aquiles foi outro que conheceu a fúria das três rodas. Após derrotar Heitor, o bravo guerreiro, ainda domado por sua ira, criou um portal para o submundo, de onde o Doom Guy, auxiliado pelas criaturas do inferno, jogou o inconveniente Pégasus na Terra e sumiram instantaneamente. Aquiles pensou que seria triunfal desfilar com Heitor amarrado ao Pégasus, e assim o fez. A vergonhosa queda o deixou com o pé tão inchado que seu calcanhar se transformou em um alvo óbvio.
Eu também tive a desonra de conhecer o supremo poder do Pégasus do Apocalipse.
Era uma tarde de Sábado. As crianças, empolgadas com a ideia de um passeio agradável ao supermercado local, fizeram um lobby para me convencer, mesmo muito cansado, a levá-las no Pégasus.
Na volta, a poucos metros de chegarmos em casa, o cansaço me forçou a pedalar mais forte para conseguir manter o ritmo de corrida de tampinhas. Ao forçar o pé esquerdo contra o pedal satanista, o Triângulo Invertido da Destruição, agora mais instável do que plutônio menstruado, deitou-se ao chão e deslizou-se graciosamente na lixa número 100 que o cobre, comumente chamada de asfalto. As crianças, que usavam capacetes e cintos de segurança na ocasião, saíram ilesas. O aslfato ficou um pouco manchado de eritrócitos, mas passa bem.
Dias se passaram e eu ainda subo as escadas como um peão cagado. Juro que consigo sentir o sorriso maléfico e realizado do Cargueiro de Satã, que ainda espera por uma peça de reposição para voltar à ativa. Hades me vendeu uma com desconto, pois ainda enfrenta a concorrência pesada de Saruman e seu proletariado barato de Uruk-hai.
Após esfregar o asfalto com uma mistura caseira de corpo e dignidade, comecei a refletir sobre a vida. Sempre pensei em deixar uma marca para as gerações futuras, mas não era bem nesse tipo de marca que eu pensava. O Moedor de Gente, por outro lado, exibe suas marcas de guerra com muito triunfo.
O pacto de sangue está selado.
A Canção
(Verso 1)
Quando o inferno resolveu
Construir sua maior criação,
Não buscava fogo ou guerra,
Nem canhões de destruição.
Disfarçou o seu projeto
Com discurso ambiental.
“Salvem pandas! Liberdade!”
Era o plano infernal.
(Refrão)
Vamos lá, vamos lá,
No Cargueiro de Satã.
Três rodas girando, sorrindo,
Nunca mais será o amanhã.
Pinte de verde, chame de paz,
Venda esperança em promoção.
Três rodas girando, sorrindo,
Marchando rumo ao seu caixão.
(Verso 2)
Da Vinci tentou combatê-lo,
Projetando um rival mortal.
Fracassou… mas fez dinheiro
Vendendo brinquedo infernal.
Senhor Addams achou mais prudente
Nem chegar perto da invenção.
Preferiu bungee jump pelas bolas
A enfrentar tal maldição.
(Verso 3)
Sauron logo aceitou
Fabricar aquela criação.
Foi por culpa das três rodas
Que os Elfos fugiram então.
Lá no Rio encontraram paz,
Bem distantes da besta e de Sauron.
E enfim tinham boa desculpa
Pra largar qualquer tentação.
(Refrão)
Vamos lá, vamos lá,
No Cargueiro de Satã.
Três rodas girando, sorrindo,
Nunca mais será o amanhã.
Pinte de verde, chame de paz,
Venda esperança em promoção.
Três rodas girando, sorrindo,
Marchando rumo ao seu caixão.
(Ponte)
Aquiles buscou a glória,
Heitor quis arrastar.
Mas bastou uma curva errada
Pro destino gargalhar.
Seu calcanhar virou lenda,
O Pégasus saiu vencedor.
Nem o inferno quis de volta
Tamanha a intensidade da dor.
(Verso Final)
Então chegou minha vez
De enfrentar o Triciclo do Mal.
As crianças rindo, sentadas,
Tudo parecia normal.
Mas o pé esquerdo insistiu
Em desafiar o Moedor de Gente.
Corpo, sangue e dignidade
Viraram tinta de asfalto permanente.
Hoje subo cada escada
Como um velho peão cagado.
E o Pégasus, alegre, espera
Só por um cubo rolamentado.
(Refrão Final)
Vamos lá, vamos lá,
No Cargueiro de Satã.
Três rodas girando, sorrindo,
Nunca mais será o amanhã.
Pinte de verde, chame de paz,
Venda esperança em promoção.
Três rodas girando, sorrindo,
Marchando rumo ao seu caixão.
(Outro)
Alguns deixam monumentos.
Outros deixam uma canção.
Eu deixei uma marca no asfalto…
…com o Pégasus da Destruição.